BENVINDO(A) A UM ESPAÇO DE POSTAGENS SOBRE MITOS GREGOS COM A FINALIDADE DE MOTIVAR VOCÊ A PENSAR SOBRE POSSÍVEIS SIGNIFICADOS EM SUA VIDA.

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O mito do herói

Culturas orientais e ocidentais apresentam muito em comum no que se refere à descrição mitológica ou religiosa da criação do Universo. A presença de ascensão e queda tanto de entidades divinas quanto humanas, percorre a história dessas civilizações.

Só para citar dois exemplos da literatura ocidental, observamos, no cristianismo, a revolta de Lucifer (que significa o que carrega a luz, uma divindade criada pelo Deus supremo) contra Deus; na mitologia grega, já acompanhamos, em nossas leituras, a sequencia de filhos divinos derrubando seus pais para tomarem o seu lugar.

Observaremos, no decorrer de nossos estudos, a hibris, que é o que representa a desobediência, a desmedida nos limites do homem em relação aos deuses olímpicos, e os castigos que se sucedem por causa disso, do mesmo modo como Adão e Eva foram expulsos do paraíso, “castigados” por sua desobediência. Não há uma diferença fundamental entre os crimes humanos apresentados por essas culturas: resumem-se na desobediência do homem, em relação a ordens divinas.

O que intentamos apresentar aqui, será sempre uma análise dessa “desobediência” ou “desmedida” e suas consequências, quer sob o prisma divino, quer sobre a capacidade de o homem seguir seus próprios destinos em busca de sua evolução.

Não é meu intento descortinar senão as questões arquetípicas que envolvem a mitologia grega, mas sabemos que há inúmeros estudos a respeito da simbologia da expulsão do homem do “paraíso” e o que isso representa para a evolução da alma humana como unidade divina. Do mesmo modo, veremos como Édipo, por exemplo, pode se apresentar como o herói do livre arbítrio com a busca de seu caminho de individuação, em vez de o encararmos, apenas, como o herói predestinado à desgraça, como vemos em diversas leituras literárias. Enfim, estas são as questões que intento levantar para nossas discussões, a partir das próximas postagens.

A descoberta do herói em cada um de nós é de suma importância para nossos estudos. E gostaria de aprofundar-me nessa questão, através da transcrição de um texto que li do livro “O despertar do herói interior”, de Carol S. Pearson, páginas 16 e 17: 

As histórias a respeito de heróis são profundas e eternas. Elas ligam os nossos próprios anseios, desgostos e paixões às experiências dos que vieram antes de nós, de modo que podemos aprender algo a respeito da essência do significado de ser humano, e também nos ensinam de que forma estamos ligados aos grandes ciclos dos mundos natural e espiritual. Embora os mitos que podem dar significado a nossas vidas sejam profundamente primitivos e arquetípicos, às vezes nos inspirando terror, eles também têm a capacidade de libertar-nos de modos de vida falsos e fazer com que passemos a ter uma vida de verdade. Se evitarmos o que T.S. Elliot chamou de ‘terror primitivo’, perderemos nossa ligação com a intensidade e o mistério da vida. O encontro da nossa ligação com esses padrões eternos proporciona-nos um senso de significado e importância até mesmo nos nossos momentos mais penosos e alienados, recuperando dessa maneira a dignidade da vida.

O paradoxo da vida moderna é que, ao mesmo tempo que estamos vivendo como nunca se viveu antes e, assim, recriando diariamente o nosso mundo, nossas atividades frequentemente nos parecem infundadas e vazias. Para transcender esse estado, precisamos nos sentir enraizados simultaneamente na história e na eternidade.

É por isso que o mito do herói é tão importante no mundo contemporâneo. Trata-se de um mito imemorial que nos une a pessoas de todas as épocas e lugares. Ele fala em saltar intrepidamente através dos limites do conhecido para enfrentar o desconhecido e ter confiança de que, quando chegar o momento, teremos os recursos necessários para enfrentar nossos dragões, descobrir nossos tesouros e retornar para transformar o reino. Ele também fala em aprendermos a ser verdadeiros com nós mesmos e a viver em harmonia com os outros membros da nossa comunidade. (p. 16)

Nosso mundo apresenta muitos dos sintomas clássicos de um reino devastado: fome, danos ao ambiente natural, dificuldades econômicas, grandes injustiças, desespero e alienação pessoais e a ameaça de guerra e aniquilamento. Nossos “reinos” refletem estados de nossa alma coletiva e não apenas a de nossos líderes. Esta é uma época da história humana em que há grande necessidade de heroísmo. Tal como os heróis de outrora, nós contribuímos para restaurar a vida, a saúde e a fecundidade do reino como um benefício colateral decorrente do fato de termos empreeendido nossa jornada, descoberto o nosso destino e ofertado nossas próprias e singulares dádivas. É como se o mundo fosse um gigantesco quebra-cabeça e cada um de nós que empreeendesse uma jornada retornasse com um de seus pedaços. Coletivamente, à medida que todos vão dando sua contribuição, o reino é transformado. (p.17)

Com esse texto a autora nos incita à construção e à reconstrução. É claro que, olhando ao redor, observando tudo que está acontecendo atualmente no mundo, muitas vezes, nos vemos incapazes de achar que qualquer medida, no momento, pode ser construtiva, diante de nossa “pequenez” individual.

De fato, em palestras e debates, com muita frequência, ouço pessoas me dizerem: “de que adianta eu me esforçar tanto, se o mundo continua cada vez pior? Minha contribuição, extremamente árdua para mim, diante dos esforços que preciso impor, de nada estão valendo para a modificação do que vejo a meu redor, cada vez mais me parecendo descortinar um caminho para o caos irreversível.”

Costumo responder a essas pontuações apenas com esta observação:

 - Se você acha que tudo que você faz de nada serve para contribuir com a melhora do mundo, assim mesmo faça a sua parte. Se acredita que, realmente, não pode contribuir para a salvação de todos, pelo menos, salve a você mesmo.

Mas lembre-se do provérbio oriental: “quando uma borboleta balança suas asas no Oriente, a brisa de seu farfalhar alcança Ocidente”.

Essas postagens tem como finalidade a busca de autoconhecimento. Ela é atemporal, independe das guerras, das intempéries, do tumultuado mundo em que vivemos.

O autoconhecimento é um tesouro tão perene quanto o mito e os arquétipos que o compõem.  A busca interior transcende os tempos, os lugares, as desavenças entre povos e nações, as lutas políticas e as intempéries do corpo e do espírito. Parte das raízes de nossa própria história, como seres humanos, e se estende para mais além de nossa simples compreensão.

Busquemos isso, apesar de tudo que nos cerca, atentos e atentas às possibilidades que estão ao nosso alcance, com nossas mentes humanas e com nossas almas divinas e eternas. 

(Se quiser, deixe seu comentário ou suas questões no link “comentários”, abaixo, logo após a referência bibliográfica – retornos me ajudam a avaliar as postagens. Obrigada)

Referência bibliográfica:

Pearson, Carol S. O despertar do herói interior: a presença dos doze arquétipos nos processo de autodescoberta e de transformação do mundo. São Paulo, Pensamento, 1995

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E o Olimpo foi criado…

 Lembro que o glossário é o ponto de apoio para a leitura. Todos os termos constantes no glossário são sublinhados no decorrer dos textos do blog – veja em “categorias” – coluna à direita – e clique em glossário e comentários.

Para facilitar a leitura, apresento o resumo do início da teogonia postada anteriormente:

Caos gerou Gaia, Érebo, Nix e, também, Tártaro Eros (o Amor Antigo);

Gaia gerou Urano e com ele gerou 18 filhos, sendo Crono o mais novo, o que castrou o pai, criando, assim, o espaço entre o Céu e a Terra e permitindo que esta fosse povoada pelas divindades então geradas.

Estamos no ponto em que Crono, tendo derrotado o pai e assim libertado Gaia, sua mãe, do seu jugo, possibilitou o nascimento de seus inumeráveis irmãos. E, naturalmente, toma o poder em suas mãos.

Ah… o poder… a tenaz armadilha que se estende por gerações de deuses e homens, quantas vezes ceifando a verdadeira felicidade… isso será um dos temas principais de nossos futuros estudos.

Mas voltemos aos fatos, digo… ao mito:

Crono toma o poder e se casa com Réia, uma de suas irmãs. Com ela tem seis filhos: Héstia, Hera, Deméter, Hades, Posídon e Zeus. Evidentemente, sabe que estará sempre ameaçado, já que as Erínias o perseguem: está predestinado a que um de seus filhos lhe tome o poder, vingando, assim, o que ele próprio fizera com o pai. Buscando livrar-se do destino, Crono lança no Tártaro seus irmãos, os Ciclopes e os Hecatonquiros, preservando apenas os Titãs, irmãos em quem confiava, desfazendo-se do que considerava uma ameaça. E, para certificar-se de que seria o único Senhor do Universo, passou a engolir os filhos, tão logo nasciam.

É nesta fase que apresentamos Réia, sua esposa, com um perfil diferente de Gaia. Para livrar-se da opressão de Urano, Gaia apela para Crono, seu último filho, dando-lhe condições para que ele derrote o pai. Réia, ao contrário, toma para si a atitude de salvar seus filhos.

Segundo as palavras de Vernant, ela “opõe a Crono aquilo mesmo que o define, pois ele é um deus da astúcia, um deus da mentira e da duplicidade”(cf. 2000, 30).

Réia tinha de apresentar seus filhos a Crono, tão logo nasciam e ele os engolia, aprisionando-os em seu ventre. Ao ficar grávida de Zeus, no entanto, foge para a ilha de Creta e é lá que lhe dá à luz, entregando-o às Náiades para que ele cresça em segurança. Em seguida, apresenta-se a Crono e lhe dá uma pedra enrolada em panos de linho, no lugar do filho. Crono não percebe o ardil e a engole. Zeus cresce, assim, longe de seu conhecimento, até tornar-se adulto e forte o suficiente para enfrentar o pai.

 E é graças à astúcia, mais uma vez, que Crono é vencido. Aconselhado por Métis (Prudência), Zeus recebe dela uma droga que  dá a Réia para que esta a ofereça ao pai. Segundo Vernant, Métis representa uma “forma de inteligência que sabe combinar de antemão procedimentos de vários tipos para enganar a pessoa que se tem diante de si” (2000, 31). Réia oferece a droga ao marido, dizendo que é uma beberagem divina. Na realidade é um vomitório e Crono vomita todos os seus filhos que se libertam, assim, para a luz.

Todos os irmãos, naturalmente, se colocam ao lado de Zeus, contra o pai e começa, então, uma grande luta. Zeus consegue libertar do Tártaro os Ciclopes e os Hecatonquiros (que haviam sido lançados lá por Crono). Assim, a batalha se estabelece tendo, de um lado, Crono e seus irmão, os Titãs e, do outro, Zeus, seus irmãos e mais os Ciclopes e os Hecatonquiros. Os ciclopes presenteiam Zeus com o raio, que, mais tarde, se transformará numa das mais importantes representações de Zeus, no Olimpo. Após muitos anos de batalha (dez grandes anos – cada ano durava cem anos ou mais), Crono é enfim destronado e os Cronidas (assim se chamavam Zeus e seus irmãos) tomam o poder do Universo. Crono e todos os Titãs são arremessados ao mundo subterrâneo do Tártaro e em torno deles Posídon constrói um triplo muro de bronze e nomeia os Hecatonquiros para guardarem esse muro para sempre para que os Titãs não possam mais vir à luz.

Três irmãos se destacam entre os Cronidas: Zeus, Hades e Posídon. O Universo é, então, dividido entre eles e, por sorteio, cabe a Hades as profundezas subterrâneas (Hades), a Posídon o Mar e a Zeus o Olimpo, tornando-se, assim, o deus dos deuses e dos homens. Outra versão é a de que Zeus, tendo sido o grande libertador dos irmãos e quem os dirigiu à vitória, teve, por direito, assumir a soberania e coube a ele distribuir entre os deuses as honras e os privilégios. Fez-se Senhor do Olimpo, e concedeu a seus irmãos os lugares no Universo, de acordo com sua astúcia e sabedoria. A soberania de Zeus passou a ser preservada, desde então, pois, ao contrário de seus antecessores, ele mostrou-se como um libertador entronado por seus pares. É tido como aquele que distribui com sabedoria e justiça as honrarias e privilégios a cada um, segundo seu merecimento.

Cabe-lhe, no entanto, precaver-se para que com ele não se repita o mesmo destino que coube a seus antecessores, Urano e Crono.  Como evitar esse destino e tornar-se para sempre o Senhor do Olimpo, que não seja destronado por um de seus filhos ou por algum rebelde que o possa trair futuramente? Esta questão é primordial ao nosso entendimento, para fecharmos o significado da Teogonia.

Segundo as palavras de Vernant, “Zeus não podia ser um soberano como os outros. Precisava encarnar a soberania em estado puro, uma força de dominação permanente e definitiva.” (2000, 39)

Casa-se, então, com Métis (a astúcia, a capacidade de prever os acontecimentos). Métis engravida imediatamente e Zeus teria de usar de sua astúcia para evitar para todo o sempre que o destino de seus antecessores se repetisse, que o fruto desse casamento o destronasse. Zeus concebe que não basta ter a seu lado a astúcia. Ele precisa “encarnar” em si mesmo a astúcia para sempre. Usando de sabedoria e prudência, sabe que precisará empreender o grande desafio  de conseguir ser tão astuto quanto sua própria esposa para merecer conter este sortilégio como mais uma marca de sua personalidade. E o consegue, através do seguinte ardil: seduz Métis a tomar várias formas, como se fosse um jogo, incitando-a a transformar-se, primeiro, em um leão  que cospe fogo. Métis, o faz. Depois, pergunta-lhe se, tendo se transformado em uma fera tão terrível, seria capaz de fazer algo extremamente oposto, como transformar-se em uma gota d’água. Métis, levada pelo jogo, se transforma. Tão logo o faz, Zeus a sorve. Sorve, deste modo, toda a astúcia necessária para ser ardiloso e capaz o suficiente para jamais ser derrotado, pois passa a ter a capacidade de prever todos os acontecimentos e precaver-se de qualquer ardil que tente derrotá-lo.

 Mas Zeus, agora ainda mais astuto, não se conforma com apenas isso e concebe que há mais uma parte importante a se cumprir: Métis estava grávida de Atená e, como Zeus a sorveu, está grávido indiretamente de uma filha. Mas esta filha nascerá do próprio pai, especificamente, da cabeça do pai. Chegada a hora do nascimento, Zeus grita de dor e chama para socorrê-lo seu filho Hefesto e também Prometeu. Eles o socorrem e lhe dão uma pancada com um machado duplo (o machado duplo tem características iniciáticas, segundo a civilização cretense) em sua cabeça que se abre e de lá sai a jovem Atená adulta, armada com sua lança e seu escudo.

Assim, toda a astúcia do Universo está concentrada em Zeus e sua filha Atená, que o ama acima de todas as coisas e estará sempre a seu lado, sob qualquer circunstância. Ele está, enfim, duplamente protegido e nada poderá surpreendê-lo, resolvendo, deste modo, para sempre, a questão de sua soberania.

Muito embora nunca se sinta ameaçado, Zeus, pelas características da formação de sua personalidade, permanece um deus justo e ocupado com as questões dos deuses e dos homens, sempre buscando a prudência e a sabedoria para contemporizar e executar seus atos. Desta forma, permanece no Olimpo, venerado, amado e, ao mesmo tempo, temido pelos deuses e pelos homens.

Assim termina a história da formação do universo dos deuses, sob a direção de Zeus, segundo a mitologia grega. Muitos detalhes foram omitidos, pois o que nos interessa é a cadeia dos principais fatos que se mostrarão como panos de fundo para as histórias dos deuses e dos homens, encarnados, principalmente, na figura dos heróis. Em nossa próxima postagem, faremos algumas considerações a respeito dos heróis.

Resumo da Teogonia:

Caos gerou Gaia, Érebo, Nix e, também, Tártaro e Eros (o Amor Antigo);

Gaia gerou Urano e com ele gerou 18 filhos, sendo Crono o mais novo, o que castrou o pai, criando, assim, o espaço entre o Céu e a Terra e permitindo que esta fosse povoada pelas divindades então geradas.

Crono casa-se com Réia e passa a devorar todos os filhos, tão logo nasciam, com medo de ser destronado, como ocorrera com o pai. Zeus foi poupado por sua mãe que entrega uma pedra envolta em linho para ser devorada em seu lugar. Ao tornar-se adulto, aconselhado por Métis, Zeus dá a sua mãe uma droga para oferecer a Crono. A droga o faz vomitar todos os filhos (os Cronidas), que se aliam a Zeus para destronar o pai.

Após muitos anos de batalha, os Cronidas destronam Crono que é lançado com seus irmãos Titãs ao Tártaro, ficando preso aí para sempre.

Zeus mantém a sua soberania graças a astúcia de ter-se casado com Métis, sorvido e encarnado a astúcia em seu estado puro e tendo gerado, ele próprio, o fruto desse casamento, na figura de Atená, que se torna a maior defensora de seu poder e domínio. Deste modo, o poder do Olimpo estará preservado para Zeus para sempre e assim se conserva por toda a história da mitologia grega.

Considerações finais:

Entre os vários pontos que poderão servir a nossos futuros estudos, gostaria de ressaltar do texto a fúria de Urano que tem, como consequencia, o nascimento das Erínias (Éris, em geral) inaugurando a noção de crime e castigo.

Outra questão a ser levantada é o pano de fundo que move toda a criação – o sentimento de ” poder sobre o poder”, que atravessa a história de toda a Teogonia. Um poder que se transforma em sua essência, pelas várias posturas que acompanhamos pelas trajetórias de Urano, Crono e Zeus.

 É o sentimento de poder que prevalece nas histórias que compõem as duas grandes famílias mitológicas humanas, o que torna fundamental o viés que queremos apresentar nos estudos que nos propomos fazer no decorrer dessas postagens. Eis as duas famílias:

A família das Atridas, que tem como um dos principais personagens a figura de Agamemnon, cantada por Ésquilo em suas tragédias – ressaltando a trilogia de Ésquilo: Oréstia; a família dos Labdácidas, que tem como um dos principais personagens Édipo, tão conhecido por todos nós.

Gostaria de analisar o poder que cabe a Agamemnon como representativo da ânsia de poder sobre os homens.

Ousadamente, prefiro denominar o poder de Édipo como uma busca de poder sobre si mesmo, o que me faz denominá-lo, ao contrário do senso comum estabelecido, como o herói do livre arbítrio e não o herói escravo de seu próprio destino. Teremos oportunidade de discutir e comentar isso oportunamente.

Em suma, esta postagem visa destacar:

A criação das Erínias (com o conceito de crime e castigo)

 A ânsia pelo poder (que move deuses e homens em seus destinos)

 Uma proposta de estudo sobre o poder sobre os homens e o poder sobre si mesmo (este último como busca do auto-conhecimento – objetivo primeiro de nosso blog).

(Se quiser, deixe seu comentário no link “comentários” , abaixo, logo após as referências bibliográficas – eles me ajudam a avaliar as postagens. Obrigada)

Referências bibliográficas:

Brandão, Junito de Sousa. Mitologia Grega, vols. 1, 2 e 3. Petrópolis, Vozes, 1986.

Grimal, Pierre. Dictionnaire de la mythologie grecque et romaine. Paris, Presses Universitaires de France, 5 ed., 1976.

Vernant, J-P. O universo: os deuses, os homens, S. Paulo, Companhia das Letras, 2000.

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No princípio era o Caos…

Para melhor orientação da leitura, sempre que quiser aprofundar-se em alguma palavra ou expressão, deus ou herói, visite o glossário, no menu do blog – veja em “categorias” – coluna à direita – e clique em glossário e comentários. Todos os termos constantes no glossário são sublinhados no decorrer dos textos do blog.

Para nossos estudos, é dispensável ter profundo conhecimento sobre o que descrevemos nesta postagem, no que se refere aos detalhes, nomes, sucessões. O importante é captar o sentido básico, a trama que traz à tona as origens da simbologia que aqui buscamos representar - o fio da meada, o início do novelo para os verdadeiros estudos que são objeto desse blog.

Com essas observações introdutórias, podemos nos entregar, enfim, ao início de nossa história. E começaremos por  entender como tudo começou, ou seja, pela visão mitológica da criação do universo. Desta origem, poderemos desenvolver um melhor conhecimento dos arquétipos e, enfim, de nossas própria histórias. Vamos a ela:

No princípio, era o Caos (Kháos). O abismo cego, escuro e ilimitado. A total ausência, um vazio primordial. Isto é instigador. O que pode surgir de um abismo cego, escuro, ilimitado?

Surge a Terra (Gaia) do seio do Caos. De alguma forma, Gaia representa um contrário de Caos, já que é presença. Uma presença distinta, uniforme, precisa. Nascida da ausência, do seio dessa ausência. Assim, à confusão, à ausência, ao vazio, opõe-se a presença nítida, firme e estabilizadora.

Jean-Pierre Vernant diz que Gaia é o “lugar onde os deuses, os homens e os bichos podem andar com segurança. Ela é o chão do mundo” (2000, 18).

As características de Gaia são a doçura, a submissão e a humildade. Acho interessante ressaltar que a palavra humildade vem de humus (= terra), de onde o homem (humus > homo) é modelado. Um bom motivo para reflexão… mas… vamos adiante…

De Caos surge também Eros (Éros – não o Eros do Olimpo, de Afrodite, que conheceremos mais tarde). Este Eros representa o “Amor Velho ou Amor Primordial” simbolizado nas imagens com cabelos muito brancos. Até então, não havia sexualidade. Esse Eros expressa o impulso primordial do universo.

Assim, nessa perspectiva, o Universo simbólico se inicia com esses três elementos básicos: Kháos, vazio primordial; Gaia, a presença firme, estabilizadora e Éros, o impulso primordial do universo.

Como deusa “cósmica” Gaia prescinde de sexualidade e gera sozinha Céu (Ouranós – Urano) e Pontos (água – todas as águas – ou, mais especificamente, a Onda do Mar, que permanece em suas entranhas e delimita suas formas), além de Montes (que lhe dá formas onduladas). Como deusa cósmica, reproduz o Céu (Urano) como espelho de si mesma, tornando-o o seu duplo contrário. É uma réplica tão perfeita, que Urano a cobre imediatamente, deitando-se sobre ela e não deixando entre os dois espaço algum, num casamento sagrado, o primeiro casamento cósmico, como dois planos perfeitamente superpostos do universo. Urano e Pontos são contrários a Gaia em sua expressão. Gaia tem formas definidas, firmes (bem como Montes). O Céu e a Água são fluidos e líquidos.

Segundo a Teogonia de Hesíodo, há a versão de que Tártaro surgiu também como um dos elementos primordiais, bem como Nix (noite). Nesta versão, Caos e Nix estão na origem do mundo. Nix põe um ovo, dando luz a Éros, e das metades da casca partida, nascem Gaia e Urano. Como em todo mito, há várias versões e possibilidades para explicar a origem do universo, mas todas terminam por consagrar o casamento de Gaia e Urano, como um senso comum. Vamos, assim, partir desse ponto, considerando como fundamental para nossos estudos, este primeiro casamento sagrado.

 Desse casal sagrado nasce uma numerosíssima descendência dividida em quatro grupos, completando 18 filhos: Titãs (seis), Titânidas (seis), Ciclopes (três) e Hekatonkhires (três).

Mas a união entre Urano e Gaia é cruel. Urano a cobre totalmente, ocupando todos os espaços de suas formas, não deixando entre eles espaço algum. Dessa forma, os filhos gerados não conseguem sequer sair do ventre da mãe, pois não há espaço entre o Céu e a Terra onde possam viver. Ao se deitar sobre Gaia, Urano tira qualquer possibilidade de “luz” (dar a luz!). Gaia se sente reprimida, inchada em seu ventre e totalmente sufocada por Urano. Mas não reage ou não se sente em condições de reagir.

Este elemento simbólico é de suma importância para nós, pois a contrasta com Réia, que conheceremos mais adiante. 

De qualquer modo, Gaia tem a doçura aliada à loquacidade e engenhosidade. É uma divindade ao mesmo tempo escura, por sua postura de submissão e humildade, e luminosa, por conter em seu ventre a luz (!). E conversa com seus filhos Titãs, especialmente o mais novo, Crono (Khrónos). Gaia fabrica dentro de si mesma uma espécie de foice (hárpe) e a oferece a Crono. Este espera que Urano ensaie uma nova cópula com Gaia e aproveitando-se da oportunidade, castra o pai. Dominado pela dor, Urano retira-se de Gaia e se afasta para o alto do mundo, de onde não mais voltará, criando assim, entre o Céu e a Terra um espaço para que todos possam vir à luz.

Nascem, assim, todos os filhos de Gaia. Crono lança por sobre seus ombros os órgãos do pai em direção ao mar. Do membro viril cortado, no entanto, caem gotas de sangue na terra, antes que este alcance o mar e dessas gotas nascem as Erínias, personagens simbolicamente vitais a nossos futuros estudos. As Erínias são, portanto, forças primordiais, ou advindas de forças primordiais cuja função será sempre a de se vingarem de uma afronta feita por um parente a outro, ou seja, crimes consanguíneos. “Representam o ódio, a recordação, a memória do erro e a exigência de que o crime seja castigado”. (in: Vernant, 2000, 25). Nascem também outros seres como Gigantes, que vão representar a força da guerra, e as Melíadas (ninfas), também guerreiras.

Assim, “do sangue da ferida de Urano nascem três tipos de personagens que encarnam a violência, o castigo, o combate, a guerra, o massacre” (op. cit). Isto será denominado, na descrição da mitologia grega como Éris, ou seja, conflitos, discórdias de todos os tipos (todas as contendas) e, mais especificamente, quando se tratar das Erínias propriamente ditas, discórdias provenientes de crimes em uma mesma família.

 Enquanto o movimento provocado por Gaia, Urano e seus filhos se desenrola, paralelamente, Caos, além de Gaia, produz por si só dois filhos: Érebo e Nix (noite). Érebro personifica a profundeza das trevas permanentes, enquanto Nix gera Éter e Dia (Hemera, em grego), ambas, portadoras da luz. Éter personificará a luz cósmica mais pura, mais próxima ao Céu, enquanto Dia e Nix passarão a formar um ciclo uniforme de noite e dia.

Assim se consagra a primeira geração divina e deixaremos para a outra postagem, o final da criação da chamada Teogonia (genealogia dos deuses), para que possamos, a partir de então, discorrer sobre alguns mitos, em particular.

Em resumo:

Caos gerou Gaia, Érebo, Nix e, também, Tártaro e Eros (o Amor Antigo);

Gaia gerou Urano e com ele gerou 18 filhos, sendo Crono o mais novo, o que castrou o pai, criando, assim, o espaço entre o Céu e a Terra e permitindo que esta fosse povoada pelas divindades então geradas.

Entre os vários pontos que poderão servir a nossos futuros estudos, gostaria de ressaltar especificamente do texto a fúria de Urano que tem, como consequencia, o nascimento das Erínias (Éris, em geral) inaugurando a noção de crime e castigo.

 Observação final: como fiz questão de ressaltar no início da postagem, os nomes dos deuses e deusas primordiais não precisam ser memorizados, bem como os detalhes de sua história. O intuito é que tenham apenas uma idéia do desenrolar da trama para que possam entender melhor alguns episódios e seus significados, futuramente. Para facilitar sempre a leitura, o glossário estará sendo atualizado constantemente, à medida que cada termo, expressão ou personagem vier a ser incluído em nossos textos. Te-lo à mão, facilitará qualquer necessidade de recorrer a significados não memorizados.

Referências bibliográficas:

Brandão, Junito de Sousa. Mitologia Grega, vols. 1, 2 e 3. Petrópolis, Vozes, 1986.

Grimal, Pierre. Dictionnaire de la mythologie grecque et romaine. Paris, Presses Universitaires de France, 5 ed., 1976

Vernant, J-P. O universo: os deuses, os homens, S. Paulo, Companhia das Letras, 2000).

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Glossário e comentários

O objetivo deste glossário é ajudar a entender os termos que encontrará no decorrer de suas leituras. Se você encontrar algum termo não incluído no glossário, por favor, avise para que eu possa mante-lo adequadamente atualizado.

Áte – significa cegueira da razão – ver adiante o étimo hybris, com a contextualização de como áte se manifesta.

Atená, do grego Athena, originariamente é apresentada como uma deusa cretense, associada a árvore e também à serpente, como deusa da vegetação. Aparece bem mais tarde, na civilização aquéia (de Micenas) como a deusa guerreira, com um enorme escudo que cobre todo o seu corpo. É natural que assim se apresente a essa civilização, já que os micênicos eram fundamentalmente um povo guerreiro. Torna-se, a partir daí, a defensora das acrópoles (cidades) micênicas e, mais tarde, da Acrópole de Atenas, quando se torna sua protetora.  Seu outro nome, Palas Atená,  a Atená defensora, mostra bem essa característica. Atená é resultado do casamento de Zeus e Métis (sua primeira esposa). Tendo Métis engravidado, Zeus teve medo que o fruto desse casamento o destronasse, como fez com seu pai e devorou Métis. Assim, a gestação de Atená deu-se indiretamente no ventre do pai. Ao chegar a hora de seu nascimento, Zeus sentiu uma tremenda dor de cabeça e, alucinado, pediu ajuda de um de seus filhos Hefaístos, o ferreiro dos deuses, que partiu sua cabeça e dela saiu Atená, adulta e guerreira. Atená é, assim, nascida da mente de Zeus e representará a luz da razão e da justiça, além de guerreira. Defenderá sempre seu pai, sob qualquer circunstância, pois representa, como seu fruto,  o aspecto patriarcal.

Caos, do grego Khaos – literalmente, abismo insondável. Segundo Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, o Caos é “a personificação do vazio primordial, anterior à criação, quando a ordem ainda não havia sido imposta aos elementos do mundo” (in Brandão, 1986, Vol. 1, 183). Ressalto, ainda, uma interessante observação de J. S. Brandão:  estar desorientado é entrar no Caos, de onde não se pode sair, a não ser pela intervenção de um pensamento ativo, que atua energeticamente no elemento primordial.” (id.ib). Esta observação de Brandão me reporta à alusão do estado psíquico desordenado, descontrolado, desorientado… que só consegue voltar à luz, através da Terra, do consciente. Oportunamente, falaremos da Terra (Gaia) como consciente e o Mar (Poseidon), como inconsciente.

Gaia,(ou Géia), Terra – também elemento primordial, a deusa “cósmica”, de onde nascem os seres. É mulher e mãe. Doce, firme, estável, submissa, humilde. Nas palavras de Brandão, é a “virgem penetrada pela charrua e pelo arado, fecundada pela chuva ou pelo sangue, que são o esperma, a semente do Céu. Concede e retoma a vida” (vol. 1, 185)

Céu – ver Urano

Ciclopes - filhos de Urano e Gaia, são eles: Brontes, Estéropes e Argeus. Monstros enormes e extremamente poderosos, trazendo a energia do trovão e do relâmpago. Os ciclopes ostentam apenas um olho no meio da testa, mas um olho que fulmina, tão fulminante como a arma que oferecem a Zeus (o raio)

Crono, do grego Kronos (etimologia incerta, mas identificado com outra palavra quase homônima, Khronos, que significa tempo), filho de Urano e Gaia, o mais novo entre os titãs, o filho caçula do casal, ajudado pela mãe, castra o pai com uma háspe (foice), jogando as partes sexuais retiradas, nas ondas do mar. Une-se com Rea, para um novo reinado sobre todos os seres, sendo derrotado por Zeus, ajudado por uma união entre os irmãos.

Dia, em Grego. Hemera,

Deméter – do grego Deméter, de etimologia incerta. Foi entendida pelos antigos com guê méter (deusa e mãe da terra cultivada – guê, no dialeto dório = dê, que significa terra; méter = mãe). O culto de Deméter está vinculado ao ritmo das estações e aos ciclos de semeadura e colheita, principalmente dos cereais, em especial, o trigo. Os cultos mais antigos a esta deusa se celebravam em Elêusis, com disputas atléticas, talvez as mais antigas da Grécia. Aos vencedores eram oferecidas medidas do trigo sagrado, colhido nas planícies de Raros, local consagrado à deusa. Dos rituais a ela consagrados, sempre se destacaram o trabalho de preparação da terra, a semeadura e a colheita.  Uma das festas mais significativas, no entanto, eram as Termofórias (thesmós = instituição sagrada, lei; phéreion = levar, produzir, estabelecer). Segundo estas comemorações, Deméter se estabelece como a “legisladora”, pois, tendo ensinado aos homens a cultivar os campos, também instituiu o casamento, fundando a sociedade civil. Esta festa era reservada às mulheres casadas numa analogia da fertilidade do seio materno com a fertilidade da terra.

que significa dia, é uma divindade feminina que complementa Éter, ambos gerados por Nix. Ao contrário de Érebo que conserva as profundezas das trevas, Nix gera Dia, formando com ela um ciclo uniforme: a noite cede espaço gerando o dia e este se ausenta, na presença da noite.

Érebo, do grego Érebos, significa trevas infernais (Brandão, 1986, 190) filho gerado diretamente de Caos. Representa o negro absoluto, em seu estado mais puro (Vernant, 2000, 23). Seu oposto será Éter, que representa o lugar do Céu onde jamais há a escuridão. Mais tarde, Érebo será identificado como uma das partes do Hades, a do meio, que se mantém em trevas permanentes. É irmão de Nix, gerada também diretamente de Caos. (ver Nix)

Erínias, nascidas do sangue proveniente da castração de Urano por seu filho Crono, são seres que se dedicam a perseguir e castigar todos os que cometem crimes consanguíneos.

Éris, significa conflito, contenda sob todos os aspectos. O termo é proveniente dos personagens que encarnam a violência, o combate, a guerra, o castigo, a devastação. Essa energia é advinda do sangue derramado na terra pelos órgãos sexuais de Urano, depois de castrado por seu filho caçula, Crono. Deste sangue nasceram três tipos de seres: os Gigantes, as Melíadas (ninfas) e as Erínias. As Erínias se dedicam especificamente aos crimes consanguíneos.

Éros, significa inicialmente, impulso primordial do universo. Nesse sentido é reconhecido como “Amor Primordial ou Amor Velho”, do início dos tempos, coincidindo com o aparecimento de Gaia. Mais tarde, passou a personificar do deus do amor, ligado a Afrodite. Neste sentido, representa o desejo impulsivo dos sentidos. (Brandão, vol. 1, 186-7)

Éter, do grego aither, é proveniente de um verbo, aithen, que significa brilhar, iluminar. Represetna a camada superior do Cosmo, personificando o Céu superior, onde a luz é mais pura e brilhante, ao contrário da camada mais próxima da terra, dominada pelo ar.

Hades, o deus dos infernos – do grego Hádes, de etimologia incerta. Com base na etimologia popular, sem base filológica atestada, foi erradamente traduzido por “invisível, tenebroso”. Brandão (vol. 1, 311) prefere aproximar o termo do étimo aianés que significa cruel, terrível, violento. Após a luta contra os Titãs, o universo foi dividido entre os três irmãos, cabendo a Zeus o Olimpo, a Posídon o Mar e a Hades o império localizado nas entranhas da Terra (seio das trevas brumosas), denominado etimologicamente Inferno.

Hades, domínio de Hades, o deus dos infernos. Na verdade, a descrição de Hades sofreu várias transformações, nos períodos da Grécia Antiga. No século VIII a.C. lemos, em um dos cantos da Ilíada (o que se refere ao encontro de Ulisses com Tirésias, o adivinho, e seus pais, todos mortos), que Hades era o lugar onde habitavam todos os mortos, indistintamente. Mais tarde, a descrição do Hades, como reino dos mortos, o dividia em três partes: Campos Elísios, para onde iam, por algum tempo, os que tinham algumas dívidas a purgar; Érebro, para onde também iam temporariamente os que tinham mais a pagar e, finalmente, o Tártaro, para os que tinham crimes horrendos. Nos dois primeiros casos, seriam, depois, levados para a Ilha dos Bem-Aventurados, ondem teriam uma vida isenta de preocupações). Os que fossem para o Tártaro permaneceriam ali para sempre, sob suplícios eternos. Alguns heróis e deuses imortais, no entanto, foram lançados temporariamente no Tártaro, sendo depois resgatados.(Brandão, vol. 1, 186 e também 171).

Hecatonquiros, do grego Hekatonkhiros, também denominados Cem-Braços - filhos de Urano e Gaia, são eles: Coto, Briareu, Gies. São monstros gigantescos de cem braços e cinquenta cabeças, sendo que cada braço é dotado de uma força descomunal e mãos que são capazes de espremer, quebrar e dominar as criaturas do mundo.

Hefesto – etimologia desconhecida, é filho de Hera e Zeus. O mito conta que Hera, por cólera contra o esposo, por causa de uma de suas conhecidas traições, gerou Hefesto sozinha. Em uma das versões mitológicas, conta-se que numa briga entre Zeus e Hera, Hefesto colocou-se entre os dois tentando apartá-los. Zeus, em sua fúria, deu-lhe um empurrão tão forte que os fez despencar-se do Olimpo, o que lhe provocou muitas feridas, inclusive na perna, tornando-se manco para sempre. Em conseqüência disso, passou a servir de chacota para os  outros deuses. Hera, enfurecida pelo que aconteceu com seu filho, pediu retratação a Zeus que o transformou no ferreiro do Olimpo, o grande artesão, responsável por criar os raios poderosos usados por seu pai. Além disso, Zeus também concedeu-lhe como esposa a formosíssima Afrodite, deusa do amor.

Hemera – ver Dia

Hera do grego Héra, de etimologia controvertida, segundo Brandão (Brandão, vol. 1, 279) talvez da mesma raiz de Héros (herói), neste caso, significando Protetora, Guardiã. Como seus irmãos, foi engolida por Crono e salva graças ao estrategema de Métis. Após ter destronado o pai Crono, Zeus a desposa. Hera foi a terceira esposa de Zeus (que já havia se unido, antes, a Métis e Têmis) e, a partir dessa boda, como legítima esposa do “pai dos deuses e dos homens”, Hera passou a ser a protetora das esposas, do amor legítimo, do casamento. Pelas outras deusas, sempre foi retratada como violenta, ciumenta e vingativa, já que perseguiu ferozmente todas as amantes de Zeus.

Héstiado grego Hestia, significa deusa da lareira no sentido estritamente religioso, personificação do fogo colocado no centro do altar, localizada no meio. Representa o culto pré-helênico do lar. Junito Brandão a indica como representação do centro religioso do lar dos homens e dos deuses, personificando o fogo sagrado.

Hybris – do grego hybris, significa desmedida, uma violência do homem contra os deuses, por ter ultrapassado a sua medida (metron) como ser humano. A hybris desencadeia a némesis (ciúme divino e consequente punição pela desmedida praticada). A punição leva o homem, através da  áte (cegueira da razão) a agir demodo que tudo que faça o conduza à desgraça inevitável, realizando apenas ações que o levem a agir contra si mesmo, caindo nas garras da moira (destino cego).

Métis, do grego metis, filha de Têmis  e do Oceano, Métis representa a Prudência. Métis será a primeira esposa de Zeus, com quem conceberá Athena (deusa da justiça, a guerreira). Tão logo engravida, Zeus, temeroso de que ocorra com ele o mesmo que ocorrera com seu pai, ou seja, que o fruto concebido o destrone, engole Métis. Tendo Métis em seu ventre, Zeus, absorve dela a sabedoria da prudência que é o que o caracteriza como deus dos deuses e dos homens. O fruto desse amor será Atená que nasce, então, da cabeça de Zeus.

Metron – significa medida – ver o étimo hybris com a contextualização de como metron se manifesta

Moira – significa destino cego – ver o étimo hybris com a contextualização de como moira se manifesta

Náiades – ninfas dos ribeiros e riachos, geram e criam grandes heróis. Vivem em cavernas, grutas e lugares úmidos. As cavernas, embora evoquem um ambiente lúgubre, estão relacionadas a locais próprios para iniciações, onde “se morre” para um renascimento para uma nova vida. É interessante ressaltar que, sob o ponto de vista da personalidade, as ninfas representam uma expressão de aspectos femininos do inconsciente. Na criação do Universo, foram as Náiades que criaram Zeus, a elas entregue por Réia para o esconderem de Crono, enquanto crescia e se tornava adulto e forte o suficiente para destronar o pai.

Némesis - significa ciúme divino – ver hybris com a contextualização de como némesis se manifesta

Nix, do grego Nýks, significa noite. Personifica a deusa da noite. Irmã de Érebo (ver Érebo), gerada como ele diretamente de Caos. Mas enquanto Érebo (trevas) “personifica as trevas subterrâneas, Nix personifica as trevas superiores, de cima” (Brandão, 1986, vol.1, 190). Nix gera Éter e Dia (Hemera), ou seja, gera a luz. enquanto Érebo permanece senhor da escuridão subterrânea.

Olimpo – monte Olimpo, morada dos deuses gregos.

Prometeu - Foi o herói responsável por enganar Zeus em benefício dos mortais. Zeus, enfurecido, privou os homens do fogo (simbolicamente, da inteligência – trataremos desse mito futuramente). Prometeu com um ardil roubou uma centelha do fogo divino e o devolveu aos homens. Por esse feito foi duramente castigado pelo deus: suspenso nas rochas, uma águia lhe devorava o fígado durante o dia e o fígado era reconstituído à noite para ser devorado, novamente, durante o dia seguinte. Prometeu foi salvo por Héracles, mais tarde, com a anuência do próprio Zeus, desejoso de saber um segredo que Prometeu guardava como única possibilidade de seu resgate. Eventualmente, falaremos desse mito, mais tarde.

Posídon, do grego Poseidon, de etimologia incerta. Brandão (vol 1, 321) aponta Carnoy como autor responsável pela origem do termo no dialeto dórico Poteidan (pósis = senhor; Dan = água), como um vocativo, significando um brado ao “senhor das águas” (água ainda permanece como designativo de rio em várias línguas como Don, Danúbio, Dnieper, por exemplo). Após a guerra contra os Titãs, na divisão do Universo, coube-lhe o domínio do Mar. Posídon que na luta contra os Titãs ficou conhecido como o “sacudidor da terra”, passou a ser o “sacudidor do mar”, recebendo o privilégio de ser também o domador de cavalos e salvador de navios. A ele foi associado, também, a figura do Touro, associado às forças subterrâneas.

Réia, do grego Rhéa – da raiz uréia  (ampla, larga, cheia), uma das Titânidas, irmã de Crono, com quem se casa após Crono tomar o poder de seu pai Urano. Simboliza a energia escondida no seio da Terra. Gerou os deuses dos quatro elementos. É a fonte primordial ctônia de toda a fecundidade (Brandão, vol.1, 201).  Obs.: os mitólogos modernos usam o termo ctônia para designar a maior parte das divindades do mundo subterrâneo  (SCHMIDT, Joël. Dicionário de Mitologia Grega e Romana. Lisboa: Edições 70, 1994 In Dicionário de Mitologia de Sérgio Biagi Gregório – http://sites.google.com/site/dicionariodemitologia/ctonia)

Tártaro, do grego Tártaros é uma palavra de etimologia desconhecida. É reconhecido como o espaço mais profundo das entranhas da Terra. muito abaixo do Hades, ou seja, do próprio inferno. Melhor descrição – ver na palavra Hades, deste glossário. (Brandão, vol. 1, 186)

Têmis, do grego Themis = lei divina ou moral, justiça, em oposição a nomos = lei humana. Têmis é a segunda esposa de Zeus, após Métis, sua filha. Têmis foi mãe das Horas e das Moiras. Personificando a justiça, é a conselheira de Zeus. Esquilo faz referência a que Prometeu também teria sido fruto desse casamento.

Titânidas – filhos de Urano e Gaia, são elas: Téia, Réia, Mnemósina, Febe, Tétis

Titãs – filhos de Urano e Gaia, são eles: Oceano, Ceos, Crio, Hiperíon, Jápeto, Crono

Urano, do grego Ouranós (Céu) – abóboda celeste, gerado diretamente por Gaia, constituindo com ela o casamento primordial sagrado.

Zeus, do grego Zeús, significa “o deus luminoso do céu”. É reconhecido como a divindade suprema, senhor do Céu e da Terra. Destronou seu pai Crono com a ajuda dos irmãos e outras divindades, após terríveis batalhas, principalmente contra os Titãs. Após a vitória, dividiu o Universo com seus irmãos e, por sorteio, coube a Posídon o mar, a Hades o mundo subterrâneo (conhecido como Hades) e a ele, Zeus, coube o Olimpo, tornando-se, assim, o pai dos deuses e dos homens.

Referências Bibliográficas:

Brandão, Junito de Sousa. Mitologia Grega, vols. 1, 2 e 3. Petrópolis, Vozes, 1986

Grimal, Pierre. Dictionnaire de la mythologie grecque et romaine. Paris, Presses Universitaires de France, 5 ed., 1976

Vernant, Jean-Pierre. O universo: os deuses, os homens. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.

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Mitologia Grega… por quê?

A escolha pela mitologia grega para dar base a este blog deu-se por dois motivos: primeiro, por ser a civilização grega, de certa forma, o berço das civilizações ocidentais; segundo, porque fui uma estudiosa de cultura clássica, especialmente cultura grega, desde a juventude.

Por muito anos, envolvida com o percurso acadêmico em outra área de atuação, deixei este amor paralelo acompanhar os meus passos, sem tocá-lo tão de perto como antigamente. Vejo, no entanto, que meus novos caminhos acabam por trazer de volta esta filha a sua casa de origem, aos seus antigos amores. E desejo compartilhar essa trajetória com você, se quiser, numa releitura de passos descansados (às vezes nem tanto…) pelos jardins, grutas, campos, ilhas, mares e céus que nos permitirem o Olimpo… e, sempre que nossos olhos alcançarem, vermos os deuses e os heróis mais de perto.

A Grécia Antiga é uma mãe perdida nos tempos. Mas seus mitos, seus princípios, sua cultura povoam e permanecem em nossos caminhos ocidentais. A melhor forma que tenho de apresentar isso em palavras é reproduzindo um de meus escritos, da década de 80:

LEGADO

Minhas pedras publicam a silenciosa angústia da poluição que as corrói. Mas sobre estas pedras, teus primeiros passos de terra ocidental:

de Atenas, te dei a Arte Maior, remodelada por ti, e o eco das vozes de Ésquilo, Sófocles e Eurípides;

de Creta, te dei um exemplo de paz, de sabedoria e de silêncio: a gloriosa paz minóica, de um povo misterioso e são;

da Jônia, te dei as ciências primeiras do mundo ocidental, suportes de ouro, o teu pedestal;

de Epidauro, te dei meu teatro ilustre de arquitetura sem deslizes e o templo-hospital de avançada técnica ancestral;

de Delfos, te dei o coração do mundo no templo de Apolo: oráculo da Antigüidade,  exemplo de fé;

de Elêusis, de Micenas, de Corinto e de Esparta, de Tirinto, de Ítaca e de cada ilha,  das três mil, eu te dei o meu espírito,  os meus princípios, a minha fé em ti.

Minhas pedras publicam a silenciosa angústia da poluição que as corrói.  Mas sobre elas deixei os frutos de filosofia, arte e ciência, berço que te dei, legado de mãe para o teu mundo de modernidade e técnica.

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Mito

A palavra mito vem do grego mythos. No seu significado mais simples, quer dizer fábula. Na verdade, esta não é, no entanto, uma definição que contemple os fundamentos de seu conteúdo.

O mito é muito mais do que uma fábula, no sentido em que a entendemos. Ele veste a base de uma visão antropológica fundamental ao homem, buscando apresentar uma explicação de suas origens, bem como do mundo e da cultura em que está inserido. Metaforicamente, o mito representa os arquétipos fundamentais dessa cultura, através da história de deuses, semi-deuses e heróis.

Mas seu conteúdo, de base religiosa, não busca apenas retratar as questões que envolvem o “ambiente” antropológico de uma cultura. Ao buscar no transcendental as interpretações das origens e da tragetória da existência do homem, a leitura do mito busca, em sua essência mais  profunda, retratar a “alma” de cada um, um universo multidimensional de significados.

E tal como trazemos marcas de impressões digitais distintas, aprendemos, em cada mito, as bases de um único saber, um saber de todos, uma alma de todos, mas realizada de modo individual, em cada um de nós.

É inegável que os mitos representam a alma do inconsciente coletivo e isso os torna vitais como bússolas para o autoconhecimento. Mas estudar um mito é mais do que encaixar-se na história da humanidade. Interpretá-lo é mais do que visualizar-se no conteúdo universal. Realizar isso é, inegavelmente,  parte fundamental do caminho. Mas é preciso trazer este conteúdo de modo particular a sua própria vivência, marcando com esses passos “divinizados”, o verdadeiro percurso da individuação.

 

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